Solo para dois intérpretes
"Enquanto pratica desporto, o seu cérebro desenvolve uma grande actividade e produzem-se ondas alfa, que são as mesmas que se registam quando acorda ou quando realiza um intenso trabalho intelectual. Nesta fase, afluem mais e melhores ideias à cabeça e cria no organismo uma sensação muito agradável; além disso, aumenta o potencial criativo"
Sílvia Real

Solo para dois intérpretes é uma performance com direção artística de Sílvia Real e Sérgio Pelágio, e música original de João Madureira. A peça conta com interpretação de Filipa Francisco e Miguel Pereira, e Angel Gimeno (violino), e estreou no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dia 29, 30 e 31 de outubro de 2002.
Solo para dois intérpretes foi uma encomenda do CCB (projeto Invenções), a partir da ideia de juntar um coreógrafo e um músico que não se conhecessem, e o processo criativo, iniciado numa residência artística no CENTA, em Vila Velha de Rodão, teve a sua dose de atribulações, como recorda Sérgio Pelágio nesta pequena entrevista:
De que modo se desenvolveu o processo criativo para esta peça?
"Acho que a Sílvia teve uma primeira conversa com o João Madureira onde ela lhe apresentou as primeiras ideias. A seguir começaram as improvisações com o Miguel e a Filipa. Um tempo depois, num segundo encontro com o João Madureira, este apareceu com a música escrita e concluída. A música era linda, um solo para violino e electrónica, só que o resto da equipa estava longe de ter o trabalho fechado e já num ponto muito distante das ideias iniciais partilhadas no princípio com o João Madureira. Isto obrigou-nos a um brainstorming total e a trabalhar de uma forma inédita para nós que era a de ter uma partitura musical já fechada, num processo bastante convencional a que não estávamos nada habituados.
Como chegaram à ideia da partida de ténis?
A certa altura, fomos fazer um visita ao espaço de apresentação e aí somos surpreendidos pela imposição de o público ter que ficar sentado à volta dos intérpretes, numa arena rectangular… Novo brainstorming, com algum pânico desta vez porque a data de estreia estava muito próxima e esta colocação dos espectadores implicava deitar fora tudo o que se tinha feito até aí. Já não sei quem foi (talvez o Miguel?) que ao olhar para uma planta do espaço disse que aquilo parecia um pavilhão desportivo. E foi isso que nos levou à partida de ténis. A música do João Madureira não sugeria uma pulsação fixa nem uma forma fechada e nós achámos que a coreografia dos movimentos imprevisíveis dos jogadores durante uma partida de ténis com o ritmo aleatório do som da bola e dos pés dos bailarinos-jogadores, faziam sentido sobre a partitura. A Filipa trabalhou sobre a Serena Williams, o Miguel sobre outra estrela do ténis mundial que já não me lembro quem era e a Ângela Ribeiro era a executante do som da bola batendo com a mão num microfone enquanto seguia a partida da régie. A bola não existia, claro (já chegava de coisas incontroláveis).
A partir daqui ficou tudo controlado ou surgiram outros desafios?
Já no CCB, o desenhador de luzes Paulo Graça, resolveu a peça quase toda com apenas um projector de cinema que é muito caro, precioso, só havia um no CCB e ninguém podia tocar nele, e ele colocou-o ao centro do campo-palco de onde emitia uma luz branca constante e uma atmosfera muito próxima dos pavilhões desportivos. E assim num piscar de olhos, resolveu-se o problema do desenho de luzes sobre o qual não tínhamos a mais pequena ideia…
O que fica para dizer sobre esta experiência de criação, depois de vencidos todos os constrangimentos?
Esta peça, que foi uma grande dor de cabeça no início do processo criativo cheio de condicionantes, acabou, por causa disso mesmo, por funcionar e ser especialmente divertida de fazer. Por isso, durante algum tempo, quando dei aulas de sonorização para dança e teatro, mostrava esta peça como o exemplo de um trabalho que nasce a tentar apenas encontrar a solução para uma data de problemas e bicos-de-obra inesperados. Chamou-se “solo para dois intérpretes” porque a peça dividia-se em duas partes: na primeira, o violinista interpretava a solo a peça do João Madureira, que assim garantia uma difusão imaculada da obra musical, e na segunda parte acontecia o solo de Sílvia Real (com dois intérpretes) sobre uma segunda execução da banda sonora, já com os ruídos da bola e dos corpos, gritos e respirações dos intérpretes. Acabou por ser uma partida de ténis sem bola muito competitiva, sobre o confronto entre diferentes processos criativos, concluindo-se que esse confronto pode transformar-se inesperadamente numa faísca criativa.
PS. na véspera da estreia, a Sílvia recebeu um telefonema do coreógrafo João Fiadeiro a perguntar-lhe se ela por acaso se lembrava que ele tinha um solo com o mesmo título! Felizmente, não era para nos pôr um processo em cima, era mesmo só por curiosidade. A coisa fez-se e a Serena Williams ganhou.
